Última alteração: 2023-10-19
Resumo
LITERATURA SEM FRONTEIRAS: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA DE CÍRCULO DE LEITURA COMO INSTRUMENTO DE ACOLHIMENTO A CRIANÇAS E ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE MIGRAÇÃO E/OU REFÚGIO.
Área de conhecimento:(Tabela CNPq): 8.00.00.00-2 Linguística, Letras e Artes.
Palavras-Chave: Literatura; Acolhimento; Círculo de Leitura; Migrante; Refúgio;
Introdução
A antropóloga e pesquisadora Mìchele Petit, coordenadora de um programa internacional sobre “Leitura em espaços de crise”, que contempla situações de guerra, de violência social, crises econômicas e migrações, em sua obra Leituras: do espaço íntimo ao espaço público, observa que “a leitura pode ajudar as pessoas a se construírem, a se descobrirem, a se tornarem um pouco mais autoras de suas vidas, sujeitos de seus destinos, mesmo quando se encontram em contextos sociais desfavorecidos”, propondo um olhar destinado à elaboração “espaços de liberdade”, capazes de possibilitar a jovens leitores a ressignificação de suas existências, permitindo-lhes, via simbolizações, visualizar novos horizontes diante de situações de vida impostas por adversidades. (PETIT, 2013, p.31).
Em circunstâncias de migração e/ou refúgio, os indivíduos podem “[...] cair na melancolia e na nostalgia pelos entes queridos e da terra natal, às quais se acrescenta a culpa pela ideia de que se afastar do lugar onde viveram seus ancestrais é uma falta” (PETIT, 2009, p.171). Diante disso, acreditamos que o acesso à leitura literária pode promover momentos de alento e acalento para aqueles que se encontram em situações adversas, haja vista o fato de que, em contextos de crise, essa leitura pode constituir-se abrigo seguro, espaço de acolhida para a reflexão e reconstrução da identidade e de enfrentamento diante do novo.
Com vistas a ampliar essa discussão em torno da função/valor da Literatura, trazemos à baila o crítico Antonio Candido, quando observa que ela “corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito (1989, p. 242). Para além dessa característica, o estudioso aponta também a Literatura como um “instrumento consciente de desmascaramento”, por focalizar situações em que haja restrições ou até cerceamento de direitos: neste sentido, encontramos na literatura também um importante viés que a relaciona à luta pelos direitos humanos e à humanização.
A partir dessa perspectiva discursiva, o presente trabalho tem como objetivo apresentar uma proposta de Círculo de leitura (Cosson, 2014), tendo como referência o livro-álbum Eloísa e os bichos, de Jairo Buitrago e Rafael Yockteng, traduzido por Márcia Leite, com o olhar voltado à temática da migração e refúgio constante desta obra. Como objetivo específico, visamos destacar a importância da leitura literária como vetor de acolhimento para as pessoas em situação de crise, com destaque àquelas que se encontram em situação de migração e/ou refúgio, especialmente crianças e adolescentes.
Materiais e Métodos
Uma das definições de Círculo de leitura proposto por Rildo Cosson (2014) assim se apresenta: “uma prática de leitura compartilhada na qual os leitores discutem e constroem conjuntamente uma interpretação do texto lido anteriormente” (idem, p. 9), Ainda este autor (2014, p.157), desta feita voltando-se a uma acepção mais pragmática, assim define o Círculo de leitura: “é basicamente um grupo de pessoas que se reúnem a uma série de encontros para discutir a leitura de uma obra”, o que nos leva a inferir que tal proposta leitora permite aos participantes o papel de destaque, ocupando um espaço em que todos ficam frente a frente de modo que todos se vejam na hora da leitura e do compartilhamento das impressões do texto.
Partindo dessa perspectiva dialógica, lançamos a proposta de um Círculo de leitura intitulado "Literatura sem fronteiras", tendo como objeto de leitura o livro-álbum Eloísa e os bichos de Jairo Buitrago e Rafael Yockteng traduzido por Márcia Leite. Como já mencionamos anteriormente, essa proposição volta-se ao público de pessoas em situação de migração e/ou refúgio, mais especialmente crianças e adolescentes
A fim de desenvolver nossa proposta, de forma a melhor explorar o que a obra nos oferece, adotamos como modelo de Círculo de leitura o aberto ou não estruturado, em conformidade as instruções teóricas de Cosson (2014). Segundo ele, tal modelo assemelha-se ao Clube de leitura, dentro de um contexto muito simples onde há um revezamento de mediadores de leitura com discussões e conexões pessoais (COSSON, 2014, p. 159). As ações propostas encontram-se assim estruturadas:
Ação inicial: promoção, por parte dos mediadores de leitura, de um contato inicial de aproximação com os participantes, a fim de identificar os seus anseios, as suas impressões sobre a situação em que se encontram, suas perspectivas diante do novo que se apresenta, proporcionando-lhes um espaço de fala para a qual se estabeleça uma escuta atenta e sensível;
Preparação: aproximação entre as falas proferidas e o livro a ser abordado, no caso específico, o livro-álbum Eloísa e os Bichos, objeto literário para o Círculo de Leitura;
Passos introdutórios - Mediação: exploração de elementos de disposição gráfica, como a capa e as ilustrações; os autores também merecem menção nesta fase. O mediador pode sugerir uma leitura silenciosa, afim de promover um encontro individual leitor/obra. Em seguida, pode propor uma leitura coletiva, para que todos possam acompanhar conjuntamente o processo leitor. Vale ressaltar que é importante que o mediador direcione as perguntas para os elementos ilustrativos, como forma de facilitar a aproximação com a matéria narrada, com vistas a minimizar eventuais dificuldades de comunicação impostas pela barreira linguística.
Atividade de acolhimento: discussão a partir de temas apresentados na obra, a saber: saudades da terra natal, adaptação a novas situações, resiliência, relações humanas, empatia, diversidade e acolhimento. Durante a leitura o mediador deverá fazer pausas para que os participantes possam levantar comentários ou perguntas sobre a obra. Este momento é especialmente relevante para que ocorra a escuta atenta e sensível de todos os participantes em relação às falas realizadas.
Atividade final de acolhimento: troca, entre os participantes, de gestos ou ações que representem o acolhimento. Desenhos, poemas, músicas e fotografias podem compor satisfatoriamente essa atividade.
Encerramento: encerramento com uma reflexão geral sobre a experiência. Os participantes podem compartilhar como se sentiram durante a atividade e o que depreenderam da leitura e discussões.
Para efeito de sistematização, ressaltamos que as atividades do Círculo de leitura podem realizar-se em bibliotecas, escolas, centros culturais ou afins. É importante que haja um ambiente tranquilo e confortável para que os participantes sintam-se à vontade para se expressar. Como a proposta de Círculo de leitura volta-se para pessoas em situação de refúgio e/ou migração, sugerimos um lugar acolhedor com elementos culturais decorativos que representem sua terra (país, lugar de onde vieram). Quanto ao período de realização, os encontros podem ser organizados quinzenalmente, em conformidade com a realidade do público-alvo, observando-se sua disponibilidade e, no que concerne ao ambiente, é importante observar a conveniência da organização dos assentos (cadeiras ou bancos), de modo circular, com vistas a dispor um espaço físico em que todos os participantes possam enxergar-se no decorrer do compartilhamento da leitura.
Vale salientar, neste contexto, a relevância da função do mediador em um Círculo de leitura, pois suas ações criam as condições para que os participantes possam se envolver ativamente com a leitura, instigando a participação e levantando pontos da obra que possam aproximar o leitor do objeto literário e de seus efeitos de sentido. Ainda nesta linha, Petit (2008) afirma que este agente exerce um papel fundamental na construção do leitor, pois, ao guiar este processo, oferece aos leitores a oportunidade de vislumbrar novas perspectivas pessoais, ampliando os olhares sobre si e sobre o mundo. Trata-se de um facilitador, um incentivador da troca de ideias e da construção coletiva de significados, que promove o encontro entre o leitor / texto.
3. Resultados e Discussão
Petit (2009, p. 92) observa que “Ler tem a ver com liberdade de ir e vir, com a possibilidade de entrar à vontade em um outro mundo e dele sair. Por meio dessas idas e vindas, o leitor traça a sua autonomia, mediante a qual se constrói”. Nesse contexto, a leitura literária é uma ferramenta importante para auxiliar no processo de integração de migrantes e refugiados, haja vista seu caráter humanizador.
Alicerçados por essas concepções inerentes à importância da leitura literária mediada em situações adversas, acreditamos que as abordagens leitoras via Círculo de leitura voltado para o público em situação de migração e/ou refúgio é de suma relevância, pois sua configuração possibilita trocas de experiências entre os participantes, sendo ainda uma oportunidade de criarem novos vínculos entre os participantes. A proposta de leitura com obra Eloisa e os bichos na forma de Círculo de leitura apresenta potencial para uma ação dialógica e acolhedora junto ao público de migrantes e/ou refugiados, já que a obra traz a história de uma menina, em situação análoga ao dos público-alvo, que chega a uma nova cidade e se defronta com um mundo desconhecido, onde se sente um verdadeiro “Peixe fora d’água”, um bicho estranho. Aos poucos, aquilo que parecia, a princípio, muito diferente começa a ser encarado com naturalidade pela menina, que passou por uma situação de perplexidade e desconforto inicial, mas soube se adaptar ao “novo” que se impôs como realidade. Toda a obra retrata o percurso vivido por Eloísa em meio a adversidades oriundas do deslocamento para um lugar diferente do seu. Segundo seu autor, a narrativa de Eloísa e os bichos oferece terno e renovado olhar para questões sociais e universais como a imigração a diversidade e a tolerância. (BUITRAGO, 2013), daí decorre a justificativa para a escolha do referido livro-álbum.
A abordagem da obra Eloísa e os bichos propõe aos participantes momentos de falas, de acalanto e de acolhimento, isso porque, em meio a narrativa e ilustrações, apresenta temas que concorrem para reflexões acerca de sentimentos como a empatia, resistência diante do novo, cuidado com o outro, respeito mútuo, respeito às diferenças, entre outros. A metodologia da abordagem por meio do Círculo de leitura mostra-se bastante apropriada neste contexto, por permitir uma interação em que todos se sintam vistos e escutados devidamente, em um espaço organizado para que todos assumam lugar de protagonismo e fala. Nele, todos têm a chance de expressar suas opiniões, compartilhar experiências e desenvolver habilidades de diálogo e escuta ativa, favorecendo, pois, a inclusão e acolhimento dos participantes, em nosso caso específico, de pessoas em situação de migração e/ou refúgio.
Considerações Finais
A proposta aqui apresentada decorre do pressuposto de ser a leitura literária um meio de promoção de encontro e acolhimento entre as pessoas. O investimento em ações leitoras que nos permitam abrir caminhos que nos levem a refletir mais sobre nossa humanidade e enfrentamento de tudo aquilo que nos afasta dela constitui-se um desafio a todos nós, formadores de leitores. Que sigamos firmes nesse intento.
Para além disto, pensamos, por fim, que, mediante a abordagem dessa proposta, possamos contribuir para promover a reflexão acerca da necessidade e aceitação da diversidade cultural e étnica e fomentar a importância da literatura como ferramenta de acolhimento, nos preceitos tão bem representados por Petit (2009, p.284) nas palavras a seguir, com as quais encerramos o presente trabalho:
Cada livro lido é uma morada que o leitor toma emprestada, na qual se sente protegido, pode sonhar com outros futuros, elaborar distâncias, mudar de ponto de vista. Além do caráter envolvente, protetor, habitável da leitura, o que se faz possível em certas condições é uma transformação das emoções e dos sentimentos, uma elaboração simbólica da experiência vivida.
Agradecimentos
Agradecemos ao Instituto Federal da Paraíba - IFPB, através da Pró-Reitoria de Pesquisa, Inovação e Pós-Graduação e da Diretoria de Educação a distância, pelo apoio financeiro ao Projeto “ACOLHE (lendo): formação de mediadores de leitura para atuação em contextos de vulnerabilidade social”, do qual decorre a presente proposta.
Referências
BONIN, I. T.; MELLO, D. T. de; BARBOSA, L. F.; SILVEIRA, R. M. H. Direitos humanos, refugiados e migrantes: literatura infantil e acolhimento. Revista Interdisciplinar de Direitos Humanos, Bauru, v. 9, n. 1, p. 47–70, 2021. DOI: 10.5016/ridh.v9i1.
BUITRAGO, jairo. Eloisa e os bichos. Tradução de Mácia Leite. – São Paulo: Editora Pulo do Gato; 2013.
CANDIDO, Antonio. Vários escritos. São Paulo: Brasiliense, 1989.
COSSON, Rildo. Círculos de leitura e Letramento Literário. São Paulo: Contexto, 2014.
COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. 2. ed., 12º reimpressão. – São Paulo: Contexto, 2021.
PETIT, Michèle. A arte de ler ou como resistir à adversidade. São Paulo: Editora 34, 2009.
PETIT, Michèle. Transfigurar el horror en belleza In Para leer en contextos adversos y otros espacios emergentes, Secretaría de Cultura, Ciudad de México. p. 15-22, 2018